Na minha cabeça, Caio tinha mudado de vida. Talvez ele tivesse arranjado um emprego em uma multinacional ou simplesmente abriu um restaurante para granfinos. Ou talvez, quem sabe, anda importando tranqueiras do Paraguai. Subi em um elevador com espelhos e "caras de paisagem". O elevador saia já dentro do quarto, que era também a sua casa. Fiz cara de quem já conhecia aquele mundinho esnobe. Sentei no sofá da sala de visita e fiquei observando a quantidade de coisas no estilo daqueles "show rooms" do shopping do meu bairro.
Uma mulher uniformizada veio me oferecer um café. Obviamente, eu aceitei.
Caio veio logo em seguida com uma roupa mais esportiva. Pegou a minha xícara e trocou por uma taça de vinho tinto. Aquele ambiente merecia uma mulher fina e delicada, que não é o meu caso. Mas, enfim... alguma coisa ele queria. E estava me agradando.
Caio começou com um assunto sobre trabalho. Disse que tinha virado sócio do dono de uma microempresa que deu certo. E eu disse que estava ainda naquele mesmo estúdio sujo de tatuagens e body piercing. Continuou falando de um jeito desagradável sobre aonde morava antes e logo seguiu dizendo que eu merecia coisa melhor também. Merecer eu até posso, mas e querer?
Enfim, o assunto estava completamente entediante, e eu não conseguia entender muitas coisas.
A mulher uniformizada nos chamou para o jantar. Nos sentamos. Achei estranho a quantidade de cadeiras que existem em volta daquela mesa, já que Caio mora sozinho. Na mesa havia travessas de saladas, um arroz com legumes, um caldo de cor verde e uma carne desconhecida.
A mulher, que Caio chamava de Maria, serviu nos a salada. Somente a salada. Como não sou daquele mundo, fiquei observando tudo o que Caio fazia. Até que a idéia foi boa. Pelo menos não passei vergonha perto da Maria, risos.
Já não aguentava mais de sono quando Caio sugeriu um barzinho para nos distrairmos e eu recusei o convite para contar a ele sobre o motivo principal da minha visita. Sentamos novamente na sala e eu contei todo o meu sonho pra ele. Por um momento senti que ele não havia prestado muita atenção, mas depois fez uma cara de assustado que foi convincente. Nisso, ele pegou a minha mão, olho no fundo dos meus olhos e disse que o que aconteceu com a gente no mês passado foi somente atração e que ele nunca havia sentido nada por mim. Somente me achava legal para sermos amigos. Disse que tinha medo de dizer isso pra mim, por isso desviava as vezes do meu caminho e aproveitou essa ocasião para dizer o que nele estava tão engasgado. Eu respondi a ele que estava tudo bem, que eu sentia sim alguma coisa por ele, mas que já passou e que eu estou agora com outra pessoa. Ele me deu um abraço e pelo toque de suas mãos senti um certo alívio. Chamei um táxi, nos despedimos e eu segui em direção a Rua Quatro.
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Acordei na manhã dessa quarta feira chuvosa e tomei um belo de um banho. Arrumei o meu cabelo e coloquei uma roupa decente. Tomei um suco de laranja e comi um pão de queijo que misteriosamente apareceu no meu forno. Achei o meu mp4 que eu havia perdido, coloquei o fone de ouvido e segui direto ao trabalho, ao som de Axl Rose no seu melhor estilo. Detalhe para o meu guarda chuva que quebrou na Rua de casa e eu tive que ir correndo pela Rua do Centro, sem pegar o meu cigarro.
Entrei no estúdio toda molhada e a Jack deu risada de mim. Sentei no balcão e já tinha alguns desenhos para fazer. A preguiça dessa vez tinha tomado literalmente conta de mim e eu havia terminado aqueles desenhos somente depois do almoço. Aliás, almocei na padaria que inaugurou semana passada e particularmente não gostei muito da comida. Terminei o meu serviço e pedi um guarda chuva emprestado pra Jack, para eu poder ir embora seca.
Segui, não sei porque, pela Rua do Centro novamente. Fiquei sem fumar o dia inteiro e tive que pagar mais caro por aquele maço que vendia na tabacaria da Rosa. Já era um pouco tarde e ela nem estava lá.
Continuei o caminho fumando um cigarro e em um momento meu de distração, dei de cara com o Lucas saindo de uma loja de instrumentos musicais. Ele sorriu pra mim e me comprimentou com um beijo no rosto. Fomos até em casa juntos, conversando sobre a mudança do clima. A Rua Quatro de quarta feira é mais movimentada, por causa do culto da igreja evangélica que tinha na esquina com a Rua Cinco. Entramos no apartamento, subimos de escada porque a luz tinha acabado e chegamos até o terceiro andar. A minha intenção era dar um "tchauzinho" básico e entrar rapidamente pra dentro de casa. Mas, Lucas me puxou e me deu um beijo. Aquele beijo. Não conseguíamos parar de se beijar e quase entramos no apartamento dele. Mas, eu estava muito cansada e por mais que o meu corpo quisesse aquilo, a minha cabeça queria dormir e eu tive que ir pro meu apartamento. Me despedi com mais um beijo e fui dormir com um sorriso automático de menina apaixonada.
Continua ...





